sábado, 27 de abril de 2013

Post 93 - Genealogia das Famílias de Barra Velha



Palestra proferida ontem, 
26 de abril de 2013, 
no Primeiro Seminário de Cultura 
de Barra Velha.


Havia um público muito bom!
Agradeço ao diretor de Cultura do município, professor Juliano Bernardes, pelo convite. Agradeço também pela homenagem recebida através das duas pequenas réplicas da Bandeiro do Divino Espírito Santo (fotos abaixo):







Seminário de Cultura de Barra Velha


Genealogia das famílias Barravelhenses – por Telmo José Tomio




Há 300 anos atrás, o nosso Estado chamava-se Província de Santa Catarina. Possuía 3 vilas: São Francisco, Desterro (a atual Florianópolis) e Laguna.

As três vilas fundadas por bandeirantes da Capitania de São Vicente: Nossa Senhrora da Graça do Rio São Francisco, Nossa Senhora do Desterro, e Santo Antônio dos Anjos da Laguna.


A população era formada por remanescentes das tribos indígenas, e por descendentes dos paulistas: bandeirantes e pessoas vindas da Capitania de São Vicente, que haviam fundado essas vilas e deixaram por aqui descendentes e outros que aqui fixaram residência.
O rei de Portugal temia perder essas terras para a Espanha. Diante disso e tendo em vista o inchaço populacional do Arquipélago dos Açores, pertencente ao Reino de Portugal, foi feita uma campanha para aumentar a população do Sul do Brasil, onde os casais açorianos que quisessem vir, receberiam terras e ajuda para aqui começarem uma nova vida.




Entre 1748-1756, vieram dos Açores para cá, 6000 pessoas, sempre em casais, com ou sem filhos. Chegavam à Ilha de Santa Catarina e dali eram direcionadas  para diversas freguesias, núcleos de colonização açoriana: Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, Nossa Senhora das Necessidades de Santo Antônio de Lisboa, Nossa Senhora do Desterro, Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão da Ilha, São João do Rio Vermelho, São Francisco de Paula de Canasvieiras, São José da Terra Firme, São Miguel da Terra Firme, Nossa Senhora do Rosário da Enseada de Brito.

Povoamento Açoriano em Santa Catarina - Final do Século XVIII
Dessas principais freguesias, se espalharam para o sul, São Joaquim de Garopaba, Vila Nova de Sant’Anna (Imbituba), Laguna, Imaruí, para a Província do Rio Grande de São Pedro até a Colônia do Sacramento (no atual Uruguai),  e para o norte, São Sebastião de Tijucas, Senhor Bom Jesus dos Aflitos de Porto Belo (Ex Enseada das Garoupas), Santíssimo Sacramento de Itajaí, Penha do Itapocorói, Piçarras, Barra Velha, Araquari e também São Francisco.


As  freguesias do continente catarinense no final do  século XVIII.
(Na Ilha de Santa Catarina  há ainda outras freguesias)

A colonização alemã em SC iniciou-se em 1829, em São Pedro de Alcântara.  Em 1845, na atual Ilhota, naquela época ainda Itajaí, foi fundada a Colônia Belga. Em 1850, novos alemães de maiora pomerana se intalaram e fundaram a Colônia Dona Francisca (na região da atual Joinville). Em 1860, foi fundada a Colônia Itajaí (que é a atual cidade de Brusque), para onde foram alemães, na grande maioria, vindos de Baden). A partir de 1875, vieram os italianos e se instalaram na Colônia Itajaí-Principe Dom Pedro (Brusque, Botuverá, Nova Trento e parte de Gaspar). Instalaram-se também na Colônia Blumenau (Blumenau, Gaspar, Ascurra, Rio do Sul, Rio dos Cedros, Rodeio etc). Instalaram-se também no sul do Estado (Nova Veneza, Urussanga etc).  Em 1818 houvera uma tentativa de colonização italiana, em São João Batista. Era a Colônia Nova Itália. A colônia não deu certo, mas muitos imigrantes permaneceram na região.
De todas essas colonizações nós temos descendentes em Barra Velha nos dias de hoje. E de outros lugares mais...






Não faz sentido nós queremos conhecer as coisas, se não soubermos um pouco das nossas origens, da nossa história. O filósofo Sócrates, 600 anos antes de Cristo, usava uma sábia frase: Conhece-te a ti mesmo.


A genealogia quer nos ajudar a conhecer um pouco mais das nossas origens. Juntamente com a história, elas reconstroem as nossas memórias, para que possamos nos conhecer melhor, conhecer melhor as pessoas de nossa comunidade e, assim, planejarmos um futuro melhor.
Por isso é importante preservarmos os documentos antigos. É importante anotarmos nossas memórias, guardarmos as fotos e passarmos toda essa informação para as gerações futuras.

Fazendo um trabalho com meus alunos da Escola Conselheiro Astrogildo Odon de Aguiar, propus que cada um pesquisasse em casa e montasse sua árvore genealógica. Constatei com isso que, muitos não sabem quase nada além dos nomes dos avós. Não sabem a origem do sobrenome, não sabe de onde a família veio, não sabem porque vivem nessa região.
Então eu demonstrei aos alunos, que, montando a árvore genealógica e retrocedendo algumas gerações, bisavós, trisavós, tetravós, fica mais fácil de descobrirmos de onde vieram nossos ancestrais, além de descobrimos vários parentescos existentes entre colegas da mesma escola, do mesmo bairro, da mesma região.


Para construirmos a nossa árvore genealógica, devemos anotar nomes completos, datas e locais, começando por nós:
Eu – meus pais – avós paternos – avós maternos
Os 8 bisavós – se não souber a data certa, mas ao menos o lugar onde nasceu, onde morreu, pois, isso ajuda muito numa pesquisa. Depois temos os 16 trisavós, os 32 tetravós e por aí vai.



Página do Livro de Casamentos da Paróquia São Francisco Xavier, de Joinville - 1909
Os cartórios de registro civil, no Brasil, começaram a surgir com a Proclamação da República, em 1889. Antes disso, a Igreja tinha também a função de cartório: os padres eram responsáveis por anotar nos livros os nascimentos, os casamentos e as mortes das pessoas, e também os registros de terras. Esses livros antigos estão guardados nos Arquivos Históricos das Cúrias Diocesanas, ou Arquivos Históricos do Estado. A Sociedade Genealógica de Utah, dos Mórmons, também tem cópias de grande parte dos livros de registros. 

No Brasil, há vários grupos de pesquisadores que se dedicam à Genealogia. Eu faço parte de dois grupos: um do Rio de Janeiro, de caráter nacional, e outro aqui de Santa Catarina. Nós temos reuniões mensais e trocamos muitas informações sobre nossas pesquisas. Os pesquisadores que são associados têm cópias digitais desses livros, o que facilita muito a pesquisa. Por isso, quando a pessoa não consegue avançar em suas pesquisas, o ideal é pedir auxílio profissional de um pesquisador genealogista. Além de pesquisas profissionais, aquelas que as pessoas me contratam para montar a genealogia de uma determinada família, atualmente, eu estou  montando um livro com as genealogias de todas as famílias estabelecidas no nosso litoral norte, mais precisamente na foz do Itajaí, desde o rio Camboriú até a Barra Velha do Rio Itapocu, do litoral para o interior, do ano 1750 aproximadamente até cerca de 1880. Já estou há 6 anos nesse trabalho. Fiz a transcrição dos livros mais antigos da região, alguns sozinho e outros em mutirão, com grupos que eu coordeno, grupos de pesquisadores que ajudam a transcrever os dados que estão anotados nos livros. Fizemos vários de São Francisco, Araquari, Penha, Itajaí, Brusque, Barra Velha, Gaspar, Nova Trento, Porto Belo, Lagoa da Conceição, São José, Vila Nova de Santana, Imaruí, Camboriú, Paranaguá...


Os livros são de difícil leitura, pois, estão rasgados, desbotados, manchados, sem falar da escrita da época. Requer um pouco de treino, uma certa prática e familiaridade com o jeito que eram escritas certas letras naquela época. Acima, página do livro de óbitos de São Francisco do Sul - 1790.
Outra fonte de pesquisas são os livros de Cartório, as lápides de Cemitérios, e os livros que falam sobre colonização, imigração, história local. Artigos de jornais e entrevistas ajudam muito. O projeto Descortinando Histórias, do professor Juliano, é muito importante, ajuda muito.
Eu extrai do meu trabalho de pesquisa, os Sobrenomes que mais aparecem no Primeiro Livro de Batizados da freguesia de Barra Velha, a partir de 1862:


Alves  - Alves da Silva
Azevedo
Brenneisen
Borba – Borba Coelho
Borges
Caetano – Caetano da Silva
Cardoso – Cardoso da Silva
Carvalho
Chiuff
Coelho – Coelho da Rocha
Coelho de Magalhães
Cordeiro – Cordeiro de Souza
Correa – Correa da Silva – Silva Correa – Correia
Correa dos Santos
Costa
Cunha
Dias – Dias de Arzão
Dias – Dias Ribeiro
Dias – Dias da Silva
Duarte
Espindola
Fernandes – Fernandes da Maia – Fernandes Ortunho
Freitas
Furtado
Garcia
Goes – Antunes de Goes – Gois
Gonçalves – Gonçalves da Luz - Luz
Gonçalves – Gonçalves de Oliveira - Oliveira
Gonçalves – Gonçalves Nogueira – Nogueira
Gonçalves da Silva
Lopes
Lopes de Magalhães
Lopes de Moura – Moura
Lopes Ribeiro
Machado – Machado Gallo – Machado Maurício
Mello
Mendes
Miranda – Tavares de Miranda
Morais
Nunes
Oliveira
Pereira
Pinheiro
Ramos
Rosa
Santos
Silva
Silveira
Silveira da Costa
Siqueira – Tavares de Siqueira
Soares – Soares da Costa
Souza
Souza da Silva
Souza Machado
Souza Rosa
Souza Sarmento
Tavares – Tavares de Miranda – Tavares Coutinho
Vieira
Wachter – Walther



Nos livros posteriores ao primeiro, aparecem esses e  outros sobrenomes,  pois, as famílias migravam muito. Exemplo: a família Fagundes, do professor Cacá: tem registros  de 1820 em Itajaí, depois aparecem Luís Alves no final do século XIX, e aparecem em Barra Velha no século XX. 
A família Bernardes. No início do século XIX aparece em Camboriú e Itajaí. Por volta de 1890, um ramo da família migrou para São João do Itaperiú. Dali pra cá, começa a aparecer nos livros de Barra Velha. 
A família Borba. São todos descendentes do casal açoriano Antônio de Borba Cabral e Mônica Mariana. Eles vieram da Freguesia da Ribeirinha, na Ilha Terceira, Açores e se fixaram  primeiramente na freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, depois foram para São Miguel (na atual Biguaçu), e migraram  ainda antes de 1800 para a Praia Brava, em Itajaí. Um dos filhos desse casal açoriano se chamava Silvestre de Borba Coelho. Ele teve 13 filhos e morreu no dia 02 de março de 1819, na Praia Brava, em Itajaí. Alguns dos filhos de Silvestre se espalharam pelo nosso litoral. Encontramos Borba Coelho ou somente Borba em Itajaí, Navegantes, Piçarras, Barra Velha, Araquari, São João do Itaperiú, Luís Alves, Massaranduba, Guaramirim, Jaraguá do Sul, Corupá, Joinville, São Francisco.
A família Coelho: muitos são descendentes dos Coelho de Magalhães. Outros, dos Coelho da Rocha. A família Coelho da Rocha veio da freguesia de Santa Bárbara, Ilha Terceira, Açores. Muitos hoje, são somente Coelho. Alguns são somente Rocha.  Essa família se instalou no final do século XVIII, ou seja, antes de 1800, na foz do rio Itajaí. José Coelho da Rocha foi o doador do terreno para a construção da primeira igreja do Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Conceição, em Itajaí, em 1823. Essa família também se espalhou, e está presente em toda a nossa região.
Um sobrenome que também aparece por aqui é Lamim. São todos descendentes da família Gonçalves Lamim, instalada há mais de 400 anos na região de São Francisco, e dali, espalhada por todo o nosso Estado.
Os Góes (Góis), a mesma coisa. São descendentes da família Antunes de Goes, que há 400 anos atrás já estavam presentes em Iguape e Cananéia.
Os Alves Marinho também são o mesmo caso. Quatro séculos na nossa região. O lugar forte de moradia deles sempre foi a freguesia do Senhor Bom Jesus do Paraty, atual Araquari. Dali se espalharam.
Muita gente de sobrenome Dias é descendente da antiga família Dias de Arzão.  João Dias de Arzão era sesmeiro do Rio Itajaí.  Dois filhos dele, de nomes João e Antônio morreram em Itajaí, um 1796 e outro 1797. Foram sepultados no Cemitério da Armação de Itapocorói. Essa família também se espalhou pela região. Muitos hoje são somente Dias, outros são Dias da Costa ou Costa, alguns são Aragão, Arrazão etc.
A família Brenneisen: o alemão João Jorge Frederico Brenneisen, que na Alemanha era Johann Georg Brenneisen (sem o Frederico), conforme pesquisa de Simone Brenneisen Foltran Mürner, residente na Alemanha (Frederico seria uma homenagem a um irmão que tinha morrido na guerra). O alemão João Jorge Brennaisen foi um mercenário do Imperador, que lutou nas guerras do sul (Guerra Cisplatina 1825-1828), e depois se estabeleceu em Barra Velha, conforme Aguinaldo Valentim Fidelis. O sobrenome Brennaisen aparece nos registros escrito de todas as formas possíveis, menos a correta. O sobrenome começa a aparecer corretamente quando o cartorário de Barra Velha era João Olegário da Silva, casado com Maria Úrsula Brenneisen. Depois da Guerra Cisplatina, Brenneisen veio para a região de Barra Velha e formou família com Maria Luciana Alves, filha de Joaquim Alves da Silva e Luciana Fernandes. 

Joaquim Alves da Silva nasceu aos 25 de julho de 1798, na Armação de Itapocorói, Penha, filho de José Alves Lourenço e Teresa Lopes. Ele era neto de Lourenço Alves, um português que morreu aos 13 de julho de 1792, no lugar onde morava, o Tabuleiro da Barra Velha, e foi sepultado também no Cemitério da Armação de Itapocorói. Sua mulher Anna da Silva de Jesus, que era avó de Joaquim Alves da Silva, morreu no Tabuleiro aos 15 de dezembro de 1810 e foi sepultada no Cemitério das Piçarras.
As famílias Alves da Silva e Brenneisen têm muitos descendentes nessa região.

Outras famílias muito antigas em Barra Velha são as famílias Luiz, Luiz Tavares e Luiz de Castro – que é uma única família, e a família Lopes de Moura, que hoje encontramos como Moura. A família Luiz é descendente de Domingos Luiz de Siqueira, de São Francisco, entrelaçada com Alves, vindos de Paranaguá. A família Lopes de Moura tem sua origem em São Francisco. Os registros de óbitos desses Lopes de Moura dos anos 1797 e 1840 dizem que eles moravam no lugar chamado Itapocu, também na nossa região.
A família Souza, em grande parte, é descendente dos Souza da Silva, que vieram da freguesia de São Miguel para trabalhar na pesca da baleia na Armação de Itapocorói. 
A família Cordeiro. Temos os Souza Cordeiro – hoje só Cordeiro, vindos de Paranaguá. Temos os Vieira Cordeiro – hoje só Cordeiro também, vinda da freguesia do Espírito Santo da Vila Nova, Ilha Terceira, Açores.
As famílias Espindola e Veiga, em geral, tem sua origem no açoriano Antônio Machado da Veiga, da Ilha Graciosa, Açores. Alguns filhos tiveram o sobrenome Machado da Veiga, e hoje só Veiga, e outros filhos tiveram o sobrenome Machado de Espíndola, hoje só Espindola. Existem aqueles também que são somente Machado.
As famílias Aguiar, Azevedo, Bernardes e Garcia vieram de Camboriú para essa região após 1880.
Descendentes dos escravos africanos também ficaram em nossa região, formando numerosas famílias. Muitas adotaram o sobrenome de seus antigos senhores: Caetano, Rosa, Coelho, Thomaz, Santos,  e também os sobrenomes Jesus e Conceição.
Encontrei em minhas pesquisas vários sepultamentos realizados no Cemitério da Lagoa de Barra Velha, o antigo cemitério.

Espero, em breve, poder contribuir com a história da região, através do livro que estou escrevendo. Ele vai ser um subsídio para que as pessoas possam continuar suas árvores genealógicas.
Obrigado!

Telmo José Tomio – genealogista, membro do Instituto de Genealogia de Santa Catarina (INGESC) e do Colégio Brasileiro de Genealogia (CBG-RJ). Barra Velha, 26 de abril de 2013.
Contatos: telmotomioosm@yahoo.com.br - (47) 9605-1220.

Assista ao vídeo da palestra: http://youtu.be/PQLoxfIIuX4

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